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Capital caro faz da inovação uma questão de sobrevivência

Juros elevados, inadimplência recorde e crédito mais seletivo ampliam a distância entre empresas no Brasil. Enquanto negócios capitalizados investem em produtividade e inovação, companhias pressionadas concentram recursos na operação corrente. O c...

Redação
Por: Redação Fonte: Agência Dino
01/09/2026 às 11h14
Capital caro faz da inovação uma questão de sobrevivência
Drin Inovação

O ciclo prolongado de capital caro deixou de ser uma questão restrita às decisões financeiras e passou a influenciar a estratégia e a operação das empresas brasileiras. Companhias com caixa e acesso a financiamento conseguem alongar dívidas, investir em produtividade e testar novos caminhos. As demais concentram recursos na operação corrente e perdem espaço para preparar o próximo ciclo.

Os indicadores mostram a dimensão da pressão. Segundo a Serasa Experian, o Brasil superou 9,1 milhões de empresas inadimplentes em junho de 2026, o maior número da série histórica. As dívidas negativadas chegaram a R$ 232,9 bilhões. Micro e pequenas empresas respondiam por 8,6 milhões dos CNPJs em atraso e concentravam R$ 201,4 bilhões desse total, quase 95%.

A recuperação judicial surge quando a pressão já não cabe nas negociações usuais. O país encerrou 2025 com 2.466 CNPJs envolvidos nesses processos, recorde da série histórica da Serasa Experian e avanço de 13% em relação ao ano anterior. Até abril de 2026, outros 602 CNPJs estavam envolvidos em 268 processos. Agropecuária, serviços, comércio e indústria sentem efeitos distintos, mas convivem com dívida cara, margens menores e menos espaço para reorganizar o negócio.

"O caixa compra tempo, enquanto o acesso a capital compra opções", afirma Igor Drudi, especialista em gestão e inovação da DRIN Inovação. Para ele, a falta dos dois transforma a estratégia em administração de prioridades. Na prática, projetos que poderiam modernizar fábricas, desenvolver produtos, formar equipes ou abrir canais comerciais passam a disputar recursos com capital de giro e compromissos já assumidos.

O mercado de capitais brasileiro registrou captações recordes de R$ 361,8 bilhões no primeiro semestre de 2026. O resultado agregado, porém, não significa acesso amplo: R$ 288,8 bilhões vieram de renda fixa. A renda variável registrou o primeiro IPO desde 2021 e totalizou oito ofertas no total, incluindo operações de companhias que já estavam listadas.

Esse cenário indica mais seleção do que ausência de recursos. O capital procura balanços sólidos, garantias melhores, fluxos previsíveis e histórico de execução. Empresas que atendem a esses critérios podem financiar estoque, atualizar sistemas, contratar competências e aguardar o retorno dos investimentos. As que perderam essa porta pagam mais caro, aceitam condições menos favoráveis ou adiam decisões. Com o tempo, a distância financeira torna-se operacional.

A indústria explicita essa equação. Em consulta divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), 58% das empresas esperavam redução da margem líquida e cerca de quatro em cada dez projetavam aumento da dívida bancária. Entre aquelas que previam maior necessidade de financiamento, mais da metade também esperava juros maiores. Em outra sondagem, 56% informaram a intenção de investir em 2026, enquanto os juros altos apareciam como barreira à transformação dessa intenção em capacidade produtiva.

"A inovação não é um luxo de tempos de bonança; ela é o mecanismo de defesa contra a irrelevância quando o capital se torna caro e escasso", avalia Drudi. A consequência é uma mudança no critério usado para aprovar iniciativas: projetos precisam demonstrar relação com o caixa, a margem, a receita, a produtividade, o cliente, o risco ou a capacidade operacional.

Cortes podem criar dívida de capacidade

A resposta imediata à pressão financeira costuma ser o corte de despesas. Reduzir desperdícios melhora a eficiência, mas eliminar manutenção, conhecimento, relacionamento comercial, desenvolvimento de produtos e formação de pessoas preserva caixa apenas no curto prazo. A medida pode gerar uma dívida de capacidade, formada quando a empresa melhora o resultado presente removendo recursos necessários para competir no futuro.

Os primeiros sinais aparecem no retrabalho, na concentração de decisões em poucas pessoas e no aumento dos prazos dos projetos. Em seguida, os clientes percebem a piora, os profissionais deixam de enxergar perspectiva e os sistemas acumulam remendos. Quando a perda chega ao balanço, parte da capacidade já foi desmontada. A OCDE observa que períodos prolongados de baixo investimento pesam sobre a produtividade e o crescimento potencial, enquanto a incerteza adia compromissos de longo prazo.

Inovação sob restrição exige outro método

Em um ambiente restritivo, a inovação mais relevante nem sempre depende de grandes lançamentos ou apostas longas. Ela pode reduzir o intervalo entre vender e receber, melhorar a cobrança, diminuir perdas, rever estoques ou eliminar aprovações desnecessárias. Pequenos avanços no ciclo de conversão de caixa podem financiar mudanças que antes dependeriam de empréstimos.

O método de gestão precisa acompanhar esse movimento. Projetos longos, caros e apoiados em uma única previsão tornam-se difíceis de sustentar. Dividir iniciativas em etapas permite testar hipóteses, produzir evidências e decidir se o trabalho deve avançar, ser redirecionado ou ser interrompido. A medida de sucesso deve estar ligada ao comportamento do negócio, e não ao número de reuniões, ferramentas contratadas ou pilotos iniciados.

A mesma disciplina vale para a inteligência artificial. "A tecnologia, isolada de uma gestão disciplinada, é apenas um acelerador de ineficiências", diz Drudi. Dados ruins, responsabilidades confusas, integrações frágeis e decisões lentas limitam o ganho obtido com novas ferramentas. A tecnologia aumenta a capacidade quando a gestão redesenha o sistema no qual ela opera.

Priorizar também exige descontinuar

Capital restrito obriga escolhas e renúncias. "Priorizar não é apenas decidir o que fazer, mas ter a coragem de descontinuar o que consome energia sem gerar futuro", resume Drudi. Manter projetos demais cria uma carteira com esforços subfinanciados, divide as equipes e impede que os benefícios alcancem escala. Concentrar recursos em menos problemas pode produzir mais transformação do que distribuir pouco dinheiro por dezenas de iniciativas.

O capital caro pune desperdício, demora e falta de direção, mas também expõe modelos de negócio que dependiam de financiamento para absorver ineficiências. Sobreviver exige disciplina financeira. Permanecer competitivo exige usar essa disciplina para financiar mudanças antes que a pressão do caixa obrigue a empresa a reagir tarde demais.

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