Os empresários de Wenceslau Braz e região estão sentindo na pele o que a economia brasileira atravessa. O comércio recua, as vendas encolhem e, no fim do dia, é o consumidor quem sente no bolso — porque o capital, aos poucos, tem fugido das mãos brasileiras. Mas entender essa crise exige olhar para o conjunto de fatores que se somaram, e não para um único vilão.
O primeiro deles é a reforma tributária. O Brasil caminha para ostentar um título que nenhum país gostaria de ter: o de maior carga tributária do mundo. O Comitê Gestor da reforma publicou, em julho de 2026, a estimativa de uma alíquota combinada de IBS e CBS que preocupa o setor produtivo. Na prática, cinco tributos sobre o consumo — PIS, COFINS, IPI, ICMS e ISS — serão substituídos por dois, o IBS e a CBS, em uma transição que começou com testes em 2026 e deve terminar em 2033. A intenção é simplificar, mas o receio é que o peso sobre quem produz e vende continue subindo.
A isso se soma o tamanho do Estado. A dívida pública federal alcançou R$ 9,268 trilhões em junho de 2026, segundo o Tesouro Nacional, e a previsão é que o ano feche entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões — algo em torno de 80% do PIB. Quando o Estado gasta mais do que arrecada, o dinheiro que poderia circular no comércio local é absorvido pelo pagamento de juros da dívida. É dinheiro que deixa de virar consumo na sua cidade.
E há ainda o cenário político. A polarização entre direita e esquerda gera instabilidade e insegurança jurídica, e isso tem consequência prática: o empresário que não confia nas regras do jogo procura outro lugar para jogar. O resultado é o que muitos já chamam de êxodo — a saída de empresas brasileiras rumo ao Paraguai, que oferece tributação atrativa e um plano de governo estável que protege quem empreende. O imposto sobre vendas (IVA) paraguaio é de 10%, um dos mais baixos da América Latina, e o regime de maquila permite montar produtos no país vizinho e reexportá-los, inclusive para o Brasil. Para o vestuário, por exemplo, os encargos no Brasil podem representar até 80% do custo de produção de uma peça, enquanto no Paraguai ficam em torno de 12%. Não é difícil entender por que tantos olham para o outro lado da fronteira.
Mas há um fator que muitos empresários insistem em ignorar, e ele não tem a ver com imposto nem com política. Falo da mudança do cenário no mercado global — e, principalmente, da jornada de compra do consumidor, que mudou drasticamente com a entrada de gigantes como TikTok, Mercado Livre e Shopee.
Os atrativos dessas plataformas são arrasadores, e eles tocam exatamente nos quatro níveis primários que o pai do marketing, Philip Kotler, definiu como a essência de qualquer oferta: preço, praça, promoção e produto.
O preço é a grande chamariz. A diferença é gigante se comparada ao mesmo produto na loja física. A praça é onde a plataforma atende — e ela atende no Brasil todo, em quase todo lugar, com pontos de retirada e até entrega personalizada, com entregadores terceirizados que combinam horário com você. A promoção é algo sem igual: são diversos formatos, do cashback às ofertas relâmpago, que aplicam descontos sobre produtos que já eram mais baratos que os das lojas físicas. E quanto ao produto, a variedade é imensa — do que há de mais sofisticado à segunda linha, quando queremos pagar pouco por uma peça de roupa. E a segurança de tudo isso é sem precedentes: não gostou, é só devolver, e seu dinheiro volta para a conta.
Os números confirmam o que os olhos já veem. O e-commerce brasileiro movimentou cerca de R$ 235 bilhões em 2025, com oito anos seguidos de crescimento, e a projeção para 2026 passa de R$ 258 bilhões. Mais de 54% dos brasileiros já preferem canais digitais para comprar itens do dia a dia — alimentos, limpeza, higiene —, e 96% associam e-commerce a descontos e ofertas competitivas. O TikTok Shop, que chegou ao Brasil em maio de 2025, cresceu 102 vezes em vendas no seu primeiro ano de operação, alcançando 134 milhões de usuários no país. Não é mais tendência. É rotina.
E aqui está o ponto que mais me preocupa como profissional que acompanha esse cenário mudar a cada ano, desde quando a internet virou sinônimo de sobrevivência. Vi poucos empresários darem a devida atenção a isso. E quando digo "dar atenção", falo de aceitar o óbvio: estar presente nessas plataformas.
Vários comerciantes que estão lendo este artigo vão dizer que sim, que já estão presentes. Mas a maioria está completamente equivocada, imaginando que ter uma rede social, fazer posts todos os dias — e posts profissionais — é estar nessas plataformas. Não é. A presença online que se exigia antes ainda tem sua importância, assim como ter um site bem configurado e campanhas de Google Ads. Mas o que surge agora é completamente diferente: estamos falando de alta tecnologia da era das IAs e da entrada massiva de vendas em marketplaces cada vez mais sofisticados.
O caso da gigante TikTok, com o TikTok Shop, é emblemático. A plataforma dominou o mercado e tem atraído tanto consumidores quanto vendedores afiliados. Muitas empresas aderiram e transformaram significativamente o caixa de seus negócios. Isso é uma mudança de jogo, porque não estamos mais falando em margem, mas em venda massiva — ganhar em quantidade e de forma rápida.
Isso exige uma mudança de paradigma, de cultura e de mentalidade. E essa resistência acontece aqui, em Wenceslau Braz e região. A resistência para aceitar isso é fortíssima, como se a plataforma fosse o seu concorrente. Mas, ao contrário do que muitos imaginam, esse é o novo cenário de mercado, que mudou mais uma vez — e os varejistas mais atentos já olham para essa lacuna aberta.
É claro que a implementação não é um passe de mágica. Exige conhecimento, seguir regras e ter equipe treinada. E digo mais: não será mais uma questão de escolha, mas de quando você vai iniciar esse processo, caso queira continuar sendo comerciante do seu próprio produto e do seu próprio negócio. Se não, sobrará apenas vender para alguém — o que não é ruim, mas, para quem sonhou em ter o próprio negócio, ele pode simplesmente deixar de existir caso você também não mude de mentalidade.
Eu mesmo tenho conhecimento para ajudar essas empresas a entender todo o processo e implementá-lo por meio de um passo a passo. Mas o que não pode acontecer é ignorar os fatos que mostrei aqui. Existe solução, sim — e nem sempre é sair do país. É olhar para o cenário como um todo e se adaptar a ele.
O comércio de Wenceslau Braz não precisa desaparecer. Ele precisa, antes de tudo, enxergar o que já mudou.



