
A Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) realizou, na última quinta-feira (16), o 5º Painel sobre Autismo – A pessoa com TEA no ensino superior: um processo em construção. Promovido pela Diretoria de Ações Afirmativas e Diversidade (DAAD), da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Prae), em parceria com a Diretoria de Qualidade de Vida no Trabalho (DQVT), da Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas (Progesp), o evento integra o Abril Azul, mês de conscientização sobre o transtorno do espectro autista.
A programação contou com palestras da psicóloga clínica Daniela Perini Rigotti e da professora de Direito Gislaine Rocha Simões da Silva, além da participação de estudantes da UEPG que compartilharam experiências e desafios vividos na trajetória acadêmica. As atividades aconteceram durante a manhã, no auditório do Centro Integrar, no Campus Uvaranas, e à noite, no Grande Auditório do Campus Centro. O painel também foi transmitido ao vivo pelo canal do Nutead no YouTube ( clique aqui para assistir ).
A diretora de Ações Afirmativas e Diversidade da Prae, Iomara Favoreto, destacou o sucesso do evento, que registrou mais de 400 inscritos e teve a participação de estudantes de todos os percursos escolares que compõem a UEPG. Além de graduandos e pós-graduandos, estiveram presentes alunos do ensino fundamental e do ensino médio que frequentam o Centro de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente (Caic) e o Colégio Estadual Agrícola Augusto Ribas (Caar), ambos da UEPG.
Para Iomara, o painel reafirma o compromisso institucional com a construção de uma Universidade mais inclusiva e acolhedora. Segundo ela, o crescimento no número de estudantes com TEA demonstra a necessidade de políticas de apoio e permanência estudantil. Em 2022, eram oito acadêmicos; atualmente, são 118 pessoas acompanhadas pela diretoria. “Fora aqueles que, com todo direito, não se sentem à vontade num primeiro momento de procurar a Prae, ou que os professores e colegas saibam da condição que apresentam”, pontua. Estudantes que desejarem acesso ao Atendimento Educacional Especializado podem entrar em contato pelo telefone (42) 3220-3237.
Iomara observa que esse cenário demanda organização institucional e suporte coletivo: “Esses alunos requerem um planejamento estratégico, com orientações pedagógicas aos docentes, aos servidores e a toda a comunidade acadêmica que, direta ou indiretamente, estará no suporte e no acompanhamento de todas as atividades desenvolvidas juntamente com esses estudantes”. Ela enfatiza que o acesso ao ensino superior é apenas uma etapa do processo. Garantir permanência, acolhimento e condições reais de desenvolvimento é o que consolida uma política inclusiva. “Esse processo exige mais do que ações pontuais. Demanda mudança de cultura, quebra de barreiras historicamente construídas e, principalmente, o desenvolvimento de um olhar sensível e comprometido. É importante reconhecer que a inclusão não possui fórmulas prontas, não é um modelo acabado. A inclusão é um processo constante que se faz no dia a dia, passo a passo, no diálogo entre as pessoas com TEA, suas famílias e toda a comunidade universitária”, destaca.



Universidade como espaço de diversidade
Representando a Reitoria da UEPG, a pró-reitora de Planejamento, professora Andrea Tedesco, afirmou que a universidade pública é o espaço ideal para promover a inclusão: “Nós somos um universo de diversidade. Falar sobre o transtorno de espectro autista no ensino superior não é apenas uma exigência legal, acadêmica ou clínica. É um compromisso humano de transformar nossa instituição em um ambiente onde a neurodiversidade seja respeitada e valorizada”. Ela mencionou as obras de acessibilidade realizadas nos campi da Universidade, quando foram investidos mais de R$ 14 milhões em adequações, mas destacou que a parte mais complexa não está na infraestrutura. “O difícil é o que nós estamos fazendo aqui hoje. Esta é a parte que cabe não a um grupo específico de uma gestão, que trabalha com a parte executiva. Isso é o que cabe a toda a comunidade, tanto interna quanto externa. E ela envolve muitos aspectos, mas o principal deles é a empatia. Nós dependemos muitas vezes de sairmos das nossas zonas de conforto e repensarmos as nossas práticas pedagógicas e profissionais, de nos desafiarmos como professores e gerentes de equipes. Nós precisamos, por exemplo, olhar para uma turma e entender que todos eles são indivíduos com suas individualidades”, comenta. Andrea reforça que a missão universitária vai além da sala de aula. “Queremos uma universidade que entenda os desafios das funções executivas, da comunicação e da interação, mas que também reconheça o potencial extraordinário dos nossos alunos do espectro autista”.
A pró-reitora de Gestão de Pessoas, professora Eliane de Fátima Rauski, lembra que discutir TEA na universidade é tratar de uma realidade presente no cotidiano: “O transtorno do espectro autista não é um tema da moda ou uma pauta passageira. Ele é uma realidade presente em nossos corredores, em nossas salas de aula e departamentos administrativos. Então, falar sobre o autismo na universidade é falar sobre o direito fundamental de ocupar espaços. Muitas vezes a barreira para um aluno ou para um servidor com TEA não é uma condição neurológica, mas é o despreparo do ambiente. O acolhimento real vai além da rampa de acesso ou de software de apoio, começa na mente e no coração de cada um de nós”.
A pró-reitora ressaltou o valor da neurodiversidade para a produção científica e para a sociedade. “O olhar de uma pessoa com TEA pode trazer soluções inovadoras, foco excepcional e uma perspectiva que a chamada normatividade muitas vezes ignora. Aos nossos estudantes e servidores com TEA, saibam que a presença de vocês aqui nos torna melhores. Vocês não são desafios a serem geridos. Vocês são membros essenciais na nossa instituição”, declarou. Eliane espera que o evento seja o ponto de partida para políticas institucionais ainda mais robustas e para uma cultura de respeito mútuo. “Que possamos sair daqui com menos certezas e mais perguntas, pois é na dúvida que nasce a vontade vontade de compreender o outro. A inclusão acontece quando se aprende com as diferenças e não com as igualdades.”



A primeira palestra da programação foi ministrada pela psicóloga clínica Daniela Perini Rigotti, responsável técnica pelo Instituto de Neuropsicologia e Análise do Comportamento (Inneac), que iniciou a fala destacando a expressiva participação do público no evento. “Que bom ver tanta gente. Fiquei surpresa com o número de pessoas que estão dispostas a se abrir e se sensibilizar em prol de melhores relações humanas. Porque o ensino, o aprendizado, ele é antes de qualquer coisa uma relação entre pessoas”, afirmou. Daniela observou que os últimos anos registraram aumento no número de estudantes autistas no ensino superior, especialmente pessoas identificadas no nível 1 de suporte, um movimento que estaria relacionado ao maior acesso à informação e ao avanço dos diagnósticos.
Segundo ela, a diversidade cognitiva está presente em toda sociedade e não se restringe a diagnósticos clínicos. “A inclusão é uma oportunidade de a gente estar entendendo que nós temos uma diversidade cognitiva, uma diversidade de pensamentos. E não é porque eu tenho espectro ou porque eu tenho qualquer condição diagnosticada clinicamente. Por si só, as pessoas pensam de formas diferentes”, observa. A palestrante ressaltou que experiências de vida influenciam diretamente a maneira como cada indivíduo percebe o mundo. “Apesar de estarmos no mesmo país, de estado para estado, de cidade para cidade, nós temos culturas e contextos diferentes. Muitas vezes, os meus pensamentos, minhas emoções e como eu enxergo o mundo têm a ver com essa multilateralidade de estímulos com a qual eu estou convivendo”. Na avaliação de Daniela, reconhecer essa pluralidade é um passo importante para construir relações mais saudáveis dentro da universidade e fortalecer práticas inclusivas no cotidiano.
A segunda palestra teve como tema a inserção da pessoa autista no mercado de trabalho, ministrada pela professora de Direito Gislaine Rocha Simões da Silva, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UEPG, pesquisadora da qualidade de vida de famílias e pessoas com transtorno do espectro autista, além de mãe de dois filhos autistas. Gislaine destaca que, apesar da legislação ter avançado, muitas vezes o mercado de trabalho ainda opera sob lógicas padronizadas de produtividade, o que dificulta o reconhecimento de diferentes potencialidades humanas. “A realidade do mercado, obviamente, está num contexto capitalista e imediatista. Por muito tempo, enfrentamos uma sociedade que transfere o valor do indivíduo para a capacidade de produção padronizada. As pessoas com deficiência são frequentemente estigmatizadas como improdutivas, o que as exclui da linha de chegada da cidadania, transformando leis em meros pedaços de papel”, comenta.
Na avaliação da palestrante, a suposta improdutividade muitas vezes não decorre das características da pessoa, mas da ausência de adaptações adequadas: “A deficiência não está na pessoa. A deficiência está no ambiente”. Gislaine defendeu que a inclusão não pode depender da boa vontade individual, mas deve ser compreendida como um dever legal e ético. “Se uma instituição de ensino diz que não está preparada para receber todas as pessoas, escolha abrir outro empreendimento. Não existe mais o direito de escolha, no sentido de dar ou não oportunidade, de incluir ou não as pessoas com deficiência”.
Texto e fotos: João Pizani




























































