
A relação de Christopher Vinicius Santos com a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) começa muito antes do doutorado ou de qualquer projeto acadêmico. Começa no entorno. “A UEPG faz parte da minha vida desde criança, porque eu moro aqui pertinho, a uma quadra do Campus Uvaranas”, conta. A proximidade física se traduziu, ainda cedo, em convivência cotidiana com o espaço universitário. Antes de ser aluno, ele já circulava pelos arredores e observava a rotina dos estudantes. “No começo era um lugar de brincar, andar de bicicleta, jogar bola com os colegas ao redor do campus”, recorda. Em 2013, Christopher passou a frequentar o espaço como estudante, ainda antes do ensino superior. Foi quando ingressou no Colégio Agrícola Augusto Ribas (Caar-UEPG) para cursar o ensino técnico em Agropecuária, o primeiro passo formal dentro da instituição que, mais tarde, se tornaria central em sua formação.
Na época, Christopher ainda não sabia qual caminho profissional iria tomar. “Eu sempre tive o sonho de ser professor, desde criança”, relata. Ao mesmo tempo, o contexto do ensino técnico o aproximava de outra possibilidade tentadora: “Pensava em ir para agronomia”. Em meio a dúvida entre a docência e as ciências agrárias, a escolha veio a partir de um conselho direto de uma professora do Caar. “Ela me falou assim: ‘se você quer mesmo ser professor, eu indico para você a licenciatura e depois você pode trabalhar dentro da licenciatura na área que você gosta’. A partir disso, eu decidi e foi um ponto que mudou tudo”, conta. Ao ingressar na Licenciatura em Geografia da UEPG, ainda não tinha clareza sobre o que encontraria no curso, mas não demorou a se aproximar da área. A escolha marcou o início de um percurso acadêmico contínuo, que se estenderia para o mestrado e depois para o doutorado, ambos na mesma instituição.
“Eu tenho um carinho bastante grande pela UEPG, porque ela é responsável por toda a minha formação”, declara. Para o doutorando, a relação vai muito além da experiência individual. Ele destaca a função social e o impacto coletivo da universidade pública. “Eu vejo a educação como algo bem importante e vejo também o papel central que a UEPG tem aqui ao redor: nas vilas, nas comunidades ao entorno do campus e em Ponta Grossa no geral”, comenta. Christopher observa que essa contribuição ocorre, sobretudo, a partir de mudanças internas na própria instituição, que passou a dar mais prioridade à extensão universitária: “É um dos pilares da universidade: ensino, pesquisa e extensão. Tem que funcionar esses três pilares, senão a universidade não cumpre com o papel dela na sociedade”. Na avaliação dele, a presença da instituição influencia diretamente na dinâmica da cidade: “A Universidade é extremamente importante para o desenvolvimento local. Se Ponta Grossa tornou-se o que é hoje, atingiu esse nível de desenvolvimento, boa parte é por causa da UEPG e do que é produzido aqui. O Museu de Ciências Naturais é um exemplo disso”, afirma.


A inauguração do Museu de Ciências Naturais (MCN), em junho de 2022, foi um marco na história da UEPG. Localizado no Centro de Convivência do Campus Uvaranas, o lugar passou a reunir um acervo precioso de mais de duas mil peças de geodiversidade e biodiversidade, que antes se encontravam dispersas em vários departamentos da Universidade. Co-fundador, a relação de Christopher com o MCN vem muito antes da consolidação do espaço, ainda no início da graduação, quando começou a participar do projeto de extensão Geodiversidade na Educação, vinculado ao Departamento de Geociências. O projeto era coordenado pelo professor Antonio Liccardo, hoje coordenador do MCN. “Ele também é meu orientador no doutorado, então venho trabalhando com ele nesses últimos dez anos”, relata Christopher.
Criada em 2011, a iniciativa já carregava, desde o início, a ideia de estruturar um museu a partir de uma constatação prática: havia um volume significativo de amostras que não chegavam ao público, restritos a laboratórios e acervos pessoais de professores. “Os Campos Gerais são um local muito importante do ponto de vista da geodiversidade e da biodiversidade, mas até então não existia uma forma de expor esse material. Temos alguns museus históricos, mas que não trabalhavam tanto com essa perspectiva da riqueza natural do território de Ponta Grossa”, observa Christopher. O Museu começou de forma improvisada, a partir de uma exposição montada nos corredores do bloco L. Com o tempo, o espaço passou a receber visitantes de forma espontânea. Professores levavam turmas, estudantes indicavam para outros colegas e o fluxo aumentava gradualmente. Foram oito anos funcionando desta forma. “No último ano, a exposição já estava recebendo 15 mil pessoas por ano”, conta.
Em 2019, já estava evidente a necessidade de ampliação; o espaço apertado quase não comportava o volume de visitantes nem o acervo disponível. A partir disso, começaram as articulações para a criação de um espaço definitivo. Naquele mesmo ano a Universidade cedeu ao projeto o prédio da antiga biblioteca, o que veio acompanhado de uma mudança de concepção: o projeto passou a incorporar também a biodiversidade, a partir de uma articulação com a área de Biologia. “A gente trabalhava com geodiversidade, que é a parte abiótica da natureza, e eles com a biodiversidade, a parte viva. Então surgiu a ideia de unir as duas coisas e construir um museu de ciências naturais”, explica. Com isso, o MCN começava a ganhar forma, até que um imprevisto atrasou a inauguração. “Era um espaço que a gente queria há muito tempo. Estávamos animados com a construção do Museu, já trazendo as mostras para cá, quando levamos um balde água fria com a chegada da pandemia”, lembra Christopher. Depois disso, foram mais dois anos de espera, até o retorno das atividades presenciais possibilitado pela vacinação, quando o MCN foi finalmente aberto ao público.


Nos anos seguintes, houve um processo contínuo de estruturação. Um dos principais avanços ocorreu em 2023, com a aprovação de um projeto junto ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, que garantiu recursos para a melhoria da estrutura e a ampliação do acervo. O investimento também permitiu a concessão de bolsas para estudantes e profissionais. “Eu fico super feliz de poder ter participado da construção desse espaço, porque eu sou daqui de Ponta Grossa e desde criança eu tive contato com esse patrimônio”, conta Christopher. A relação com aquilo que se tornaria objeto de pesquisa e de profissão dialoga com experiências anteriores à vida acadêmica, que de certa forma até explicam a trajetória futura do doutorando. Ele lembra das visitas que fazia a atrativos naturais da região, como Vila Velha e Buraco do Padre, além de sítios arqueológicos com pinturas rupestres em Piraí do Sul. “Meus pais me levavam para esses lugares, e depois que eu comecei a estudar e perceber isso, senti falta de um espaço que explicasse melhor esse patrimônio, que é praticamente a função que o Museu tem hoje: a de divulgar e interpretar o patrimônio natural dos Campos Gerais”.
O trabalho de Christopher com os acervos que compõe o MCN foi constante desde a graduação, quando participou de projetos de extensão e iniciação cientifica, e pôde desenvolver vários materiais que hoje integram a exposição; entre eles está um mapa da geodiversidade de Ponta Grossa. A integração entre produção acadêmica e aplicação prática é uma experiência recorrente em sua trajetória, lição aprendida com o seu orientador. “O professor Liccardo sempre disse para tentar trabalhar com a pesquisa e extensão juntos, sem desvincular uma da outra. Ao mesmo tempo em que produzia um material para a extensão, também fazia uma pesquisa sobre o material, como ciência. Eu acho essa perspectiva bem bacana e pude aprender isso com ele”, relata.

O Museu que ajudou a construir também se tornou objeto de estudo. No mestrado em Gestão do Território na UEPG, Christopher pesquisou o potencial do MCN para o desenvolvimento sustentável de Ponta Grossa e região, considerando aspectos ambientais, culturais, sociais e econômicos. “Foi uma análise de como ele está contribuindo com a educação, a geração de emprego e a preservação do patrimônio que a gente tem aí dentro”, resume. Naquele período, a presença nas dependências do MCN fez parte do seu cotidiano durante toda a formação acadêmica. “Quando eu fazia mestrado, todo dia eu estava aqui, de manhã até de tarde”, recorda.
No mesmo ano em que entregou a dissertação, em 2022, Christopher deu início ao doutorado em Geografia na UEPG. O foco de pesquisa deixa de ser exclusivamente museus e passa a envolver todo o geopatrimônio, um conceito que inclui tanto elementos preservados no ambiente natural quanto aqueles retirados e incorporados a coleções científicas. “Ainda trabalho com museus, mas agora eu desenvolvo um modelo de avaliação para gestão sustentável do geopatrimônio. No mestrado, eu apliquei um modelo pronto para museu e agora eu tô desenvolvendo um modelo que seja replicável, tanto para museus quanto para atrativos naturais”, detalha. O modelo também considera o papel dessas unidades na produção de conhecimento, na preservação e no uso turístico, mostrando as potencialidades e as limitações desses atrativos, além de questões em que há necessidade de intervenção.

Ao aplicar o instrumento nesses dois contextos, Christopher buscou testar sua capacidade de adaptação. “No geral o modelo se mostrou replicável e também eficiente em mostrar o que a gente procura: avaliar como essas unidades, seja museu ou atrativo turístico natural, estão contribuindo com o desenvolvimento da localidade onde estão inseridas”, explica. Ele ressalta, no entanto, a necessidade de ajustes conforme as singularidades de cada território, incluindo aspectos de legislação que variam de um lugar para o outro.
A pesquisa desenvolvida em Portugal não se encerra fora do país. “Agora estou trabalhando na aplicação desse modelo aqui em Ponta Grossa e na análise dos resultados”, conta. Entre os atrativos naturais selecionados estão Vila Velha, Buraco do Padre, São Jorge e o Refúgio das Curucacas. “A gente tem aqui um patrimônio geológico muito relevante, inclusive de relevância internacional”, afirma. A expectativa agora é que o modelo desenvolvido possa contribuir para a compreensão e a gestão desses espaços.

A intenção de realizar pesquisa fora do Brasil era um objetivo antigo. O contato com o professor que o orientou no exterior começou ainda na graduação, e a aproximação se consolidou com o tempo. “Eu conheci ele em um evento que ele participou em Ponta Grossa, depois a gente se encontrou em outro evento no Rio Grande do Sul. Perguntei se ele teria interesse em me orientar lá, e ele falou que com o maior prazer me receberia”, lembra. Para Christopher, a experiência reforça a importância da participação em eventos científicos como espaço de articulação acadêmica. “A gente consegue conversar com professores e pesquisadores de outros lugares, isso ajuda bastante”, aponta.
A experiência internacional de Christopher não se resume à pesquisa ou aos resultados acadêmicos. “Foi uma experiência muito legal”, declara. Ao mesmo tempo, reconhece que sair do cotidiano exigiu adaptação. A distância da família aparece como um dos pontos mais sensíveis. “Foi um desafio deixar minha esposa, minha mãe. Eu sou bastante apegado a elas”, conta. A ida coincidiu com o início do inverno europeu, um contraste que também marcou a experiência: “No norte de Portugal são aqueles dias cinza, com chuva fraca, frio. Isso me pegou bastante”.
Antes da viagem, havia um certo receio sobre como seria recebido. A experiência prática, no entanto, foi outra. “Tinha essa ideia de que os portugueses não tratavam bem imigrantes, mas não tive nenhum problema”, afirma. As diferenças culturais aparecem em detalhes cotidianos, como a alimentação, não por uma avaliação negativa da culinária portuguesa, mas pela familiaridade com os sabores do Brasil. “Senti bastante falta da comida brasileira. A deles não é ruim, mas é diferente”, conta.

Para ele, a oportunidade de estudar fora do país sintetiza o impacto da educação. “Eu nem imaginava que ia chegar lá. Eu sou da periferia de uma cidade do interior do Paraná, então ir para Portugal através da universidade pública, de forma gratuita, mostra como a educação muda a vida das pessoas”, afirma. O doutorando deixa uma mensagem direta para todos aqueles que compartilham do mesmo objetivo: “Falo para o pessoal participar dos editais, não deixar de sonhar, que são muitas as oportunidades. Valorizar sempre a universidade pública e a educação de qualidade”.
A opção por seguir na pós-graduação está diretamente ligada ao projeto de atuação profissional de Christopher. O objetivo permanece o mesmo desde a infância: lecionar. A diferença está nas possibilidades que se ampliaram ao longo do percurso. “Eu vejo que o mestrado e o doutorado qualificam o profissional para dar aula também, para ser um pesquisador e professor. Então, ainda hoje tenho o sonho de, terminando o doutorado, seguir carreira numa universidade, num instituto federal ou numa rede de ensino básico. Desde criança tinha o sonho de ser professor, e as coisas foram se ajeitando”.
Texto: João Pizani | Fotos: João Pizani e arquivo pessoal do entrevistado
























