
Uma das principais bandas brasileiras de todos os tempos, o Paralamas do Sucesso estará presente em um show especial em Matinhos, no litoral do Paraná. No sábado (31), às 22h, a areia da Praia Brava recebe três figuras históricas do panteão do rock nacional. Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone vão apresentar o mesmo primor técnico do início da banda, que começou há mais de 40 anos. Antes dos brasileiros, os jamaicanos do Inner Circle abrem a noite em Matinhos com seu reggae.
Ao longo das décadas, a banda foi capaz de construir um arsenal de hits. Alguns deles são “Vital e Sua Moto” (1983), "Meu Erro" (1985), "Alagados" (1986), "Lanterna dos Afogados" (1988) e "Saber Amar" (1994). São dezenas de sucessos que misturam o lirismo afiado de Herbet Vianna com grooves maravilhosos da cozinha de Bi Ribeiro no baixo com João Barone na bateria.
É notável a preservação da formação original do trio e a longevidade da banda, que enfrentou uma tragédia capaz de abalar qualquer estrutura e, ainda assim, soube se reconstruir como uma fênix, mantendo uma respeitabilidade que atravessa gerações.
Após o acidente aéreo sofrido em 2001, Herbert Vianna, que é o líder do trio, teve uma lesão grave na medula espinhal e ficou paraplégico, além de sequelas neurológicas que afetaram a fala e a coordenação motora. A volta à música foi possível graças a um longo processo de reabilitação física e cognitiva, com fisioterapia intensiva e reaprendizado motor, especialmente das mãos e dos braços.
Para tocar novamente, Herbert adaptou a forma de segurar a guitarra, simplificou movimentos, ajustou timbres e passou a tocar sentado, respeitando seus novos limites físicos. A volta às turnês teve muito êxito, com shows lotados, até pela ansiedade em ver a banda reunida novamente.
Em 2025, a banda manteve uma agenda movimentada de shows com a turnê de comemoração de 40 anos dos Paralamas. Em uma apresentação que durou 2 horas e meia, a banda reuniu 50 mil pessoas no Allianz Parque, principal arena de shows da capital São Paulo. A agenda da banda também tem destino constante para a Argentina, Uruguai, Chile e Venezuela, onde construíram imensa popularidade durante o auge da banda na década de 1980.
ORIGEM–Paraibano e vindo da capital Brasília ao Rio de Janeiro, Herbert Vianna encontrou seu amigo de adolescência Bi Ribeiro, que também trocou a capital brasileira pela cidade carioca antes mesmo de os dois entrarem na universidade.
Deslocados, formaram uma banda de rock com um som totalmente new-wave, gênero musical que foi uma evolução pop, polida e eletrônica do punk rock, como a banda The Police. O som dos Paralamas também tinham forte influência dos grupos da 2 Tone – gravadora britânica que misturou o ritmo jamaicano do ska no punk inglês.
“Cinema Mudo”, de 1983, foi o primeiro álbum dos Paralamas. A produção foi uma aposta da gravadora EMI, que se encantou com os três jovens que abriram o show do Lulu Santos no Circo Voador, local histórico no Rio de Janeiro que abriu espaço para novas bandas.
As músicas cômicas do primeiro álbum foram uma determinação da gravadora para que, depois, pudessem deixar uma marca mais autoral nos próximos. Insatisfeitos com o primeiro trabalho, a banda amadureceu em postura e tomou as rédeas da produção do álbum seguinte de 1984, “O Passo do Lui”.
O finalmente tão esperado álbum mais sério do grupo foi sucesso absoluto de crítica e vendas. O disco consagrou diversos hits como "Óculos", "Me Liga", "Meu Erro", "Romance Ideal" e "Ska", que elevaram Herbert Vianna a símbolo pop brasileiro. A produção teve um som mais próximo do new-wave desejado pela banda, com uma bateria marcante inspirado nos bateristas Stewart Copeland, do The Police, e Everett Morton, do The Beat.
CONSAGRAÇÃO NO ROCK IN RIO– O reconhecimento levou o grupo a tocar na primeira edição do Rock in Rio, de 1985. Os Paralamas realizaram um dos melhores shows da estreia marcante do festival que também teve as bandas consagradas Queen, Iron Maiden, Whitesnake, Scorpions, AC/DC, Ozzy Osbourne, Yes e The B-52s.
Além dos Paralamas, Blitz, Kid Abelha e Barão Vermelho também eram bandas brasileiras de rock que iriam passar por um verdadeiro teste de fogo. Todas recém criadas no início da década de 1980, que se somaram aos experientes Ney Matogrosso, Baby do Brasil com Pepeu Gomes e o tremendão Erasmo Carlos – expoente da jovem guarda foi vaiado durante a apresentação por um público majoritariamente de heavy metal.
No terceiro dia de apresentações, os Paralamas foram sucesso absoluto e colocaram 20 mil pessoas para dançar, público que chegou a 100 mil na outra apresentação da banda, durante a mesma edição do festival.
A apresentação ficou marcada por um discurso inflamado de Herbert Vianna que defendeu os artistas brasileiros que foram vaiados, como Kid Abelha e Eduardo Dussek. A banda também entoou a música “Inútil”, do Ultraje a Rigor, que embalou o “Diretas Já”, movimento político que clamava por eleições diretas para presidente.
Com grandes atrações internacionais, a primeira edição do Rock in Rio foi responsável por convencer gravadoras, empresários musicais e a imprensa de que o rock era um mercado rico ainda a ser explorado, além de incluir o Brasil no circuito de turnês internacionais. Foi neste contexto que Os Paralamas do Sucesso, conhecidos nas rádios cariocas, tiveram o sucesso projetado nacionalmente.
IDENTIDADE MUSICAL– Alavancados por uma histórica apresentação no Rock in Rio, e pelo lançamento do disco “O Passo do Lui” recheado de hits e muito bem recebidos pela crítica, os Paralamas decidiram dar mais um passo em direção a identidade musical própria. O terceiro álbum do grupo, “Selvagem?”, de 1986, foi a confirmação definitiva da qualidade musical gigantesca e inovadora da banda, e a chave para a internacionalização.
Para a crítica da época, foi unânime que o novo disco ganhava com novos elementos sonoros. Para além do pop rock dominante da época, o som da banda envolveu reggae e ska mais marcantes, ritmos com origem jamaicana, que conquistou novamente o público brasileiro. Em duas semanas de lançamento, já era disco de ouro, chegando a 700 mil exemplares vendidos posteriormente.
Mais próxima dos ritmos jamaicanos, a banda incorporou o tecladista João Fera para ampliar a sustentação harmônica. Amigo de Barone desde os tempos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Fera integrou a formação que seguiu até a Suíça para participar do cultuado Festival de Montreux, onde foi gravado o primeiro disco ao vivo do grupo, “D”, lançado em 1987.
Entusiasmados pela fama de cruzarem a linha entre o rock e a MPB, o próximo disco, “Bora Bora”, de 1988, deixou ainda mais evidente esta característica a partir da inclusão de guitarras afro-cubanas e colaborações de artistas estrangeiros.
Influenciados pela agenda de shows internacionais, o novo trabalho teve participação do DJ de reggae Peter Metro e de Charly García, este último que foi responsável por fundar a linguagem moderna do rock argentino, misturando rock, pop, jazz, música erudita e eletrônica, tornando-se ídolo máximo da música argentina.
Entre o fim dos anos 1980 e a metade da década seguinte, os Paralamas viveram um período de transição entre continuidade, ousadia criativa e reconstrução. O álbum “Big Bang”, de 1989, ainda conseguiu manter diálogo com o grande público, enquanto "Os Grãos" (1991) e, sobretudo, "Severino" (1994) aprofundaram a busca por novos caminhos estéticos, com arranjos mais elaborados e menor compromisso com o formato radiofônico.
Mesmo sob ressalvas da imprensa e menor apelo radiofônico, a banda preservou público nos shows e, a partir de “Vamo Batê Lata”, disco ao vivo de 1995, retomou o formato pop, reconectou-se com as rádios e iniciou uma fase de enorme sucesso comercial e midiático, consolidada com “9 Luas” (1996), “Hey Na Na” (1998) e o “Acústico MTV” (1999), que recolocaram os Paralamas no centro do rock brasileiro dos anos 1990, sem perder a qualidade musical.
Mesmo com o último álbum de estúdio gravado em 2017, “Sinais do Sim”, a banda nunca precisou apelar para colaborações forçadas com outros artistas para manter-se em evidência. Com agenda e shows lotados, o grupo recebe uma enorme profundidade afetiva da plateia. Quem for à apresentação dos Paralamas neste sábado, no terceiro final de semana do Verão Maior Paraná, certamente vai presenciar a aura de raridade de uma máquina que se recusa a enferrujar.


