Economia Negócios
Geopolítica expõe fragilidade da indústria brasileira
Reorganização das cadeias globais e disputa por insumos estratégicos ampliam a pressão sobre custos, logística e competitividade das empresas brasi...
05/05/2026 13h31
Por: Redação Fonte: Agência Dino

A economia global entrou em uma nova fase de reorganização produtiva. Depois dos choques logísticos da pandemia, da guerra na Ucrânia, da escalada de tensões entre Estados Unidos e China e do avanço de políticas industriais mais protecionistas, cadeias de suprimentos deixaram de ser apenas uma discussão operacional e passaram a ocupar o centro da estratégia econômica de governos e empresas.

Em 2024, o comércio mundial atingiu US$ 33 trilhões, alta de 3,7% sobre 2023, mas esse crescimento veio acompanhado de maior volatilidade, disputas comerciais e pressões por diversificação de fornecedores, segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD).

Nesse ambiente, a discussão sobre minerais críticos ganhou peso pois não envolve só transição energética, mas também segurança econômica. A Agência Internacional de Energia (IEA) aponta que a demanda por minerais ligados à transição energética continuou avançando em 2024 e que a procura por terras raras deve crescer mais de 30% até 2030 no cenário de políticas declaradas. A instituição ressalta que esses materiais se tornaram centrais para tecnologias de energia, eletrônicos avançados, aeroespacial e defesa.

É nesse contexto que episódios envolvendo ativos minerais no Brasil, como negociações em torno de reservas de terras raras, passam a ter relevância maior do que a de um simples negócio. Eles funcionam como sinal de uma disputa mais ampla por controle de insumos estratégicos e de capacidade de processamento. Hoje, a China segue dominante nessa cadeia: responde por cerca de 60% da produção global de terras raras e por uma parcela ainda maior do processamento e refino, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) e a IEA.

Para Rodolfo Midea, CEO da Fácil Negócio Importação, empresa especializada em importação de ímãs de neodímio para setores como energia renovável, eletrônicos e indústria, esse movimento tem repercussão direta no ambiente de negócios brasileiro. "Quando se discute terras raras, não se está falando apenas de mineração. Está se falando de domínio de cadeia. O Brasil pode ter reserva e, ainda assim, continuar dependente do exterior se não avançar em beneficiamento, transformação e escala industrial. Para quem importa componentes estratégicos, isso aparece em custo, prazo, exposição cambial e menor previsibilidade", afirma. A Fácil Negócio atua em um elo em que a agregação de valor já aconteceu fora do país, o que ajuda a traduzir como uma disputa geopolítica vira pressão concreta sobre a operação.

Do ponto de vista jurídico e econômico, essa reorganização não se resume aos minerais. Segundo Rodrigo Bueno Prestes, advogado especializado em Direito Internacional Econômico, Comércio Exterior e Tributação Internacional, a lógica das cadeias globais mudou. "Durante muito tempo, eficiência significava produzir onde fosse mais barato. Agora, eficiência também significa reduzir dependência, encurtar risco e proteger setores sensíveis. Isso altera investimento, fluxo comercial e negociação internacional. Para países como o Brasil, o desafio é não ficar apenas na posição de fornecedor de base", diz. Rodrigo avalia que a geopolítica passou a interferir de forma muito mais direta na formação de preços, nas decisões de sourcing e até na atratividade de determinados mercados para capital estrangeiro.

Essa pressão global chega ao caixa das empresas brasileiras por vários canais ao mesmo tempo. Lucas Oliveira, sócio da LCS Contabilidade, consultoria contábil especializada em planejamento tributário estratégico, análise financeira de negócios e inteligência para empresas em crescimento, destaca que o efeito já não pode ser tratado como episódico. "Não é só o dólar, não é só o frete, não é só o imposto. É a combinação de tudo isso em uma cadeia mais sensível e menos previsível. Quando a empresa depende de um insumo ou equipamento vindo de fora, ela absorve junto a volatilidade cambial, a pressão logística, o custo financeiro do prazo e a tributação. Isso comprime a margem e reduz a capacidade de investimento", acrescenta. Na avaliação dele, um dos principais erros das empresas brasileiras é ainda tratar importação e exportação apenas como operação comercial, quando, na prática, elas já se tornaram tema de estratégia financeira e competitividade.

A logística é outro ponto em que essa nova geografia econômica se materializa. Célio Martins, gerente de novos negócios da Transvias, principal guia de transportes do país especializado em cargas fracionadas e na conexão entre indústria, comércio e transportadoras, ressalta que o ambiente atual elevou o peso da previsibilidade. "As cadeias ficaram mais fragmentadas, com mais pontos de dependência e mais sensibilidade à ruptura. Isso aumenta o custo de coordenação, prazo e risco. A logística deixou de ser uma etapa operacional e virou variável estratégica de competitividade", pondera. O diagnóstico conversa com a leitura do Banco Mundial e do Logistics Performance Index, que apontam que as rupturas recentes expuseram a centralidade da resiliência logística e sua relação direta com segurança econômica e eficiência comercial.

No mercado interno, os efeitos aparecem até em setores que parecem mais distantes de temas como terras raras, tarifas e comércio internacional. Celso Zaffarani, fundador da Zaffarani Construtora, empresa especializada em empreendimentos exclusivos que aliam design, tecnologia e soluções ecoeficientes, menciona que a pressão global já alterou a lógica de execução de projetos. "Hoje, custo, prazo e viabilidade são impactados por um cenário externo muito mais instável. Materiais, equipamentos, soluções e até referências de projeto passam por uma filtragem maior, porque o ambiente global mudou. A adaptação ao contexto brasileiro ficou mais decisiva", explica. Na prática, isso significa que a construtora precisa reavaliar continuamente escolhas de insumos, fornecedores e tecnologias, incorporando ao planejamento um grau maior de incerteza internacional.

É nesse ponto que a leitura estratégica ganha peso. Keila Ribeiro Flores, da KRF Advocacia Empresarial, com atuação voltada ao ambiente empresarial, analisa que muitas companhias ainda respondem a esse cenário de forma excessivamente operacional. "Há empresas que continuam olhando importação, custo e fornecedor como temas isolados. Mas a mudança é maior: trata-se de entender em que posição da cadeia a empresa quer estar e o quanto ela depende de decisões que não controla. Quem não faz essa leitura tende a competir apenas por preço e fica mais vulnerável a choques externos", sustenta. Para ela, a geopolítica deixou de ser assunto restrito a governos ou grandes multinacionais e passou a interferir diretamente no planejamento de empresas médias e de negócios intensivos em insumos, tecnologia ou distribuição.

A nova fase do comércio global não eliminou oportunidades. Ao contrário: a própria UNCTAD observa que as cadeias estão se diversificando e que países do Sul Global vêm ganhando espaço como hubs de comércio. Mas o ganho potencial não está dado. Ele depende da capacidade de capturar valor, reduzir vulnerabilidade e integrar estratégia comercial, financeira, logística e jurídica.

"Nesse cenário, o mundo deixou de premiar apenas eficiência de custo e passou a penalizar a dependência. Para as empresas brasileiras, a questão já não é apenas operar melhor, mas entender em que posição da cadeia querem competir e o quanto estão expostas a decisões que não controlam. É essa mudança que transforma a geopolítica em uma variável direta de margem, crescimento e sobrevivência no ambiente de negócios", finaliza Rodolfo Midea.