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Paraná assume liderança nacional em implantes de correção auditiva pelo SUS
Os procedimentos, assim como todo o tratamento, são oferecidos de forma gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS) com repasses via Secretaria de ...
30/03/2026 11h20
Por: Redação Fonte: Secom Paraná

O Paraná se consolidou como a principal referência brasileira em saúde auditiva de alta complexidade. Nos últimos oito anos, o Estado saltou das últimas posições para o primeiro lugar no ranking nacional de implantes cocleares por milhão de habitantes. Saiu de 2,1 implantes por milhão de habitantes em 2016, quando se mantinha na frente apenas do Ceará (1,36), para 18,0 implantes por milhão de habitantes, ultrapassando o Rio Grande do Norte (15,14) que era o líder naquele ano, com 9,39.

Entre 2019 e 2025 foram 651 implantes na rede pública de saúde paranaense. Os procedimentos, assim como todo o tratamento, são oferecidos de forma gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com repasses via Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), de mais de R$ 41,7 milhões apenas nesse período.

“Temos na Sesa em funcionamento a Linha de Atenção à Saúde da Pessoa com Deficiência, que atua de forma constante e com o propósito de prevenir agravos e proteger a saúde da pessoa com deficiência. Reabilitar a capacidade funcional é a melhor forma de inclusão e de cuidado”, disse o secretário de Estado da Saúde, Beto Preto, que afirmou ainda que os números que colocam o Estado em destaque na escala de quantidade de implantes refletem o comprometimento da Sesa com a saúde da população paranaense.

Conhecido popularmente como "ouvido biônico", o implante coclear é um dispositivo eletrônico de alta tecnologia inserido através de cirurgia. Diferente dos aparelhos auditivos convencionais, que apenas amplificam o som, o implante estimula diretamente o nervo auditivo.

O dispositivo conta com uma parte interna, que é colocada cirurgicamente dentro da cóclea (caracol da audição) e uma parte externa (que fica visível na parte posterior da cabeça) que é formada por um processador que capta o som ambiente. As duas partes são conectadas por um ímã, sendo que a externa deve ser retirada para tomar banho e dormir, e a bateria precisa ser carregada.

O implante é indicado para adultos que apresentam perdas auditivas severas, e para crianças com surdez congênita. O implante não é exclusivamente para pessoas que não ouvem nada, e sim também para quem, fazendo uso do aparelho convencional, não consegue mais ser atendido na sua necessidade.

Embora seja tecnicamente complexa e delicada devido ao espaço reduzido, a cirurgia é considerada de baixo risco clínico. Pode ser feita em bebês a partir dos 6 meses, até idosos acima de 90 anos, desde que haja condições clínicas.

O processo de avaliação para elegibilidade inclui exames clínicos e avaliação fonoaudiológica específica, como o exame BERA (Brainstem Evoked Response Audiometry). Também é importante a avaliação de psicólogos e outros especialistas, caso o paciente tenha alguma doença ou condição pré-existente.

O implante é ativado cerca de 30 dias após o procedimento cirúrgico e é essencial que a pessoa passe pela adaptação e acompanhamento com um médico otorrinolaringologista especializado em implante.

“Nesse primeiro momento o som é estranho e o volume é baixo. Existe todo um processo para ir adaptando e, gradativamente, ir ajustando o volume. E, com tudo isso acontecendo, o acompanhamento com fonoaudiólogo é fundamental, porque é preciso que o cérebro aprenda a interpretar os sinais elétricos enviados pelo implante”, explica o médico otorrinolaringologista Neilor Mendes, que coordena um dos Centros Especializados em Implante Coclear do Paraná, localizado no Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul, que atende de forma gratuita.

BUSCANDO ATENDIMENTO - A porta de entrada para acessar o tratamento é a Unidade Básica de Saúde (UBS) de referência do paciente. A partir dessa consulta, caso exista a indicação, a pessoa será encaminhada para o setor especializado. “É importante as pessoas saberem como procurar o tratamento. As pessoas sabem, por exemplo, que se o rim delas não funcionar mais, elas podem fazer hemodiálise, mas a grande maioria não sabe que se ficar surda pode fazer um implante coclear”, diz Mendes.

Ainda conforme o médico, estudos apontam que em média apenas 5% das pessoas que poderiam ser beneficiadas com alguma tecnologia auditiva implantável de fato usam. “Realmente as pessoas não têm conhecimento do que é o implante, como funciona, e muito menos que elas podem fazer de graça pelo SUS”, destacou.

Apesar disso, essa realidade vem mudando, tanto que os números comprovam. Há 8 anos, eram feitos cerca de 30 implantes por ano e agora são aproximadamente 30 a cada dois meses. “O serviço está crescendo bastante, a Sesa nos apoia muito e com isso estamos conseguindo cada vez mais levar essa tecnologia, essa opção de saúde para os pacientes de todo o Estado do Paraná” acrescentoo médico.

Na rede particular, o valor do implante coclear parte de R$ 65 mil, podendo chegar a R$ 170 mil.

REAPRENDER A OUVIR - A professora Edilaine Montanhani, de 49 anos, é moradora de Altônia, na região Noroeste, e passou pelo implante coclear bilateral em 2022. Ela nasceu ouvint, até que, aos 20 anos, começou a sentir a perda gradativa da audição.

“Logo quando comecei a perceber que estava perdendo a audição procurei atendimento médico. No começo usava aparelho auditivo, que me ajudava, mas ainda assim tinha dificuldade de entender as palavras, sobretudo em lugares com muito barulho”, contou. “Mas, logo depois, perdi quase que totalmente a audição e precisei deixar a sala de aula”.

A mudança foi tão impactante na vida da professora que ela se isolou. “Eu cheguei em um determinado momento que mesmo com o aparelho auditivo não ouvia nada, me afastei do trabalho, dos amigos, não tinha mais vida”, relembra.

Mas ela não se entregou e buscou atendimento na Unidade Básica de Saúde, onde recebeu auxílio e orientação. “O médico me disse, num primeiro momento, que até para ele era uma situação nova, mas que eu seria encaminhada”.

Edilaine conta que passou por todo o processo de consultas e exames com especialistas. “Os profissionais de saúde não mediram esforços para me ajudar. Quando cheguei no Hospital Universitário Regional de Maringá e o cirurgião pediu os exames e avaliou que eu poderia fazer o implante, minha vida mudou novamente”.

Entre a habilitação para o implante e a efetivação da cirurgia, foram cerca de 6 meses. “É um processo lindo, de reaprender a ouvir. No primeiro ano fiz acompanhamento intenso com fono, o mapeamento do implante e até hoje sigo recebendo esses atendimentos”.

Edilaine fez questão de destacar que, desde os exames, passando pelos implantes e seguindo com a reabilitação, ela não teve nenhum custo. “Se posso dar um conselho para quem está passando pela mesma situação difícil que eu passei é que procure o atendimento através da UBS”.

EMILLY E HEITOR - Moradores de Sarandi, no Noroeste do Paraná, os irmãos Emilly Caroline Guimarães Rodrigues, de 10 anos, e Heitor Donato Guimarães Rodrigues, de 4 anos, são usuários de implante coclear. A mãe deles, Cibele Guimarães, relatou que as duas crianças nasceram com deficiência auditiva bilateral severa. “A Emilly apresentou atraso na fala, e por isso nós buscamos atendimento médico. Os exames confirmaram uma neuropatia auditiva, que é bastante complexa”, contou.

A pequena tinha pouco mais de 2 anos quando veio o diagnóstico e os implantes (bilaterais) ocorreram logo depois, com intervalo de cerca de um mês entre um e outro. “No dia do aniversário de 3 anos dela o implante foi ativado”.

No caso do Heitor, a necessidade do implante foi descoberta ainda mais cedo, aos quatro meses de vida. O diagnóstico foi o mesmo da irmã: neuropatia auditiva. As cirurgias aconteceram pouco depois de ele completar 1 ano.

O tratamento, que é realizado pelo SUS, inclui acompanhamento médico desde antes do implante. Atualmente, os irmãos têm reabilitação com a fonoaudióloga uma vez por semana e mapeamento dos implantes, que acontecem anualmente para Emilly e a cada 6 meses para Heitor. “O mapeamento avalia como está a parte interna do implante, se a externa está funcionando corretamente, se precisa aumentar ou diminuir o volume”, explica a mãe. “E o tempo varia de acordo com a necessidade de cada um. Como ela está mais adaptada, o intervalo é maior”.

A mãe contou que, apesar dos filhos serem muito jovens quando foram tratados, a adaptação foi dentro do esperado. “No começo era uma novidade, então eles tiravam, deixavam em qualquer lugar, era preciso ficar muito atenta, mas, com o tempo eles foram se acostumando”.

Cibele comentou ainda que para ela também foi uma adaptação. “No começo foi muito difícil para mim, nunca imaginei na vida que teria que passar por isso. Nenhuma mãe quer que o filho tenha alguma deficiência ou doença, e ter que tomar uma decisão tão grande por um filho é muito difícil. Ter que entregar um filho em um centro cirúrgico é muito difícil”, relatou.

“Mas a recuperação da cirurgia do implante coclear é tão tranquila que no segundo filho foi tudo mais fácil, e hoje sinto uma gratidão por ter tido esse privilégio, de ter conseguido proporcionar a eles um futuro melhor, e saber que foi a melhor decisão que tomei na vida”, completa ela.