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UEPG aprova normas para bancas de heteroidentificação racial e comissão de validação para PCDs
O Conselho de Administração da Universidade Estadual de Ponta Grossa (CA-UEPG) aprovou, na última segunda-feira (2), a resolução que estabelece nor...
05/03/2026 15h35
Por: Redação Fonte: UEPG

O Conselho de Administração da Universidade Estadual de Ponta Grossa (CA-UEPG) aprovou, na última segunda-feira (2), a resolução que estabelece normas para a realização das Bancas de Heteroidentificação Racial e da Comissão Multidisciplinar de Validação da Condição da Pessoa com Deficiência. O documento é um marco na regulamentação da política de cotas da instituição.

A proposta teve relatoria da conselheira Ione da Silva Jovino, pró-reitora de Assuntos Estudantis. Para ela, a aprovação representa um avanço na consolidação das políticas de ações afirmativas da instituição. “Eu creio que isso coloca a UEPG à frente de muitas universidades nesse quesito. É um processo que já tramitava há algum tempo e eu tô muito feliz com a aprovação desta resolução”, declarou Ione.

Foto: Reprodução/UEPG
Foto: Reprodução/UEPG

De acordo com a professora, a criação da resolução teve como objetivo consolidar em um documento institucional práticas que já vinham sendo adotadas pela Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Prae). A formalização por um órgão superior da Universidade amplia o alcance e a visibilidade das normas. “Foi o aperfeiçoamento do que a gente já vinha fazendo e praticando. Já tinha normativas da Prae, mas como o sistema de heteroidentificação atinge outros órgãos que realizam processos seletivos, a gente sentiu a necessidade de uma regulamentação que fosse maior do que o alcance da Prae”, explica. A resolução também prevê a remuneração dos membros que participarem das bancas e comissões. “É um trabalho, e todo o trabalho que é feito para o Vestibular é remunerado. Então, a gente partiu desse princípio”, explica.

A pró-reitora destaca que a elaboração e revisão do documento envolveu a participação de diferentes órgãos da Universidade. “Desde 2024 nós estávamos discutindo a atualização dessa documentação, então foram quase três anos de trabalho: vai, volta, discute, rediscute, concorda, discorda, acrescenta, tira”, afirma. “A gente teve, por exemplo, uma reorganização e adequação de termos. Quando transformamos isso num documento para aprovação do Conselho, outros órgãos leram esse material e acabaram nos mostrando incoerências, repetições e pontos onde faltava explicitar ou justificar melhor. Então, eu creio que a gente tem agora um documento mais coerente e também mais coeso, completo e padronizado.”

Foto: Reprodução/UEPG
Um dos desafios foi reunir em uma mesma resolução dois processos de avaliação com características e procedimentos distintos. No caso da validação da condição de pessoa com deficiência, a normativa prevê a atuação de uma comissão multidisciplinar. “Você precisa ter, por exemplo, um profissional com formação na área da educação inclusiva e também o olhar médico para conferir a validade do laudo e ver se há equivalência com a deficiência que está sendo alegada”, detalha. Segundo ela, o trabalho já vinha sendo realizado dessa forma. “O que a gente conseguiu fazer agora foi colocar no papel o que a gente já fazia com a avaliação dos PCDs.”

Após a aprovação no Conselho, o reitor da UEPG, professor Miguel Sanches Neto, destacou os resultados de ações afirmativas implementadas pela instituição. “O sucesso se deve muito à atuação nos últimos anos da professora Ione, da Prae, que realmente modificou a nossa política de cotas na UEPG e que hoje tem uma eficiência muito grande. Aumentou muito a presença de pessoas negras dentro dos nossos cursos”, afirmou. Segundo o reitor, o impacto pode ser observado em cursos historicamente mais concorridos. “Um bom parâmetro para isso foi o último vestibular de Medicina, que havia uma quantidade de pessoas negras muito grande. Então, acredito que a política está sendo bastante eficiente.”

Presença negra no ensino superior

“Quando eu iniciei pós-graduação numa universidade pública federal, no início dos anos 2000, era justamente o momento em que se iniciava essa discussão, com as primeiras universidades implementando políticas de cotas. E era nítida a ausência negra nesses espaços”, recorda Ione Jovino. “Até mesmo em universidades que ficam em estados com alto índice de população negra, como Salvador na Bahia, a universidade ainda era branca.”

Na UEPG, a política de cotas começou a ser implementada em 2007, quando foi estabelecida a reserva de vagas para estudantes negros de escolas públicas. A política passou por atualizações ao longo dos anos, incluindo mudanças aprovadas em 2022, que passaram a reservar vagas para pessoas negras independentemente do percurso escolar e incluíram as cotas tanto no Vestibular, quanto no Processo Seletivo Seriado (PSS).

Foto: Reprodução/UEPG
Professora da instituição desde 2007, Ione afirma que os resultados das ações afirmativas já são perceptíveis no ambiente universitário. “É nítido que as cotas abrem portas. Se for comparar a UEPG, acompanhando as formaturas desde aquela época, qualquer pessoa com um olhar mais atento já vê mudanças. Não quer dizer que ela já cumpriu seu papel e já fez o que tinha que fazer, mas quer dizer que as mudanças que vêm sendo feitas na política de cotas ao longo dos anos têm trazido resultados”, afirma.

Para ela, a presença cada vez maior de pessoas negras em profissões que antes não conseguiam acessar é uma consequência de ações afirmativas. “Existem médicos e médicas negras montando clínicas especializadas em tratar vários aspectos de saúde da pessoa negra, como dermatologistas especializados na pele negra e endocrinologistas com condição de observar questões do diabetes que afeta de forma diferenciada a população negra”, exemplifica. “O fato de surgir isso, em grande parte, é resultado das portas que as políticas de cotas estabeleceram”.

A pró-reitora observa que a existência de ações afirmativas hoje é requisito para que universidades concorram a alguns editais externos de órgãos públicos e apresentem projetos a algumas entidades. “É muito importante que a gente seja, de certa forma, até forçado a trabalhar na perspectiva da justiça social, porque isso nos obriga a olhar para dentro e ampliar a nossa visão, rever nossas políticas, refinar nossos instrumentos e ter normativas que aperfeiçoem aquilo que a gente faz”, conclui.

Texto: João Pizani | Fotos: Aline Jasper e Gabriel Miguel